Field Notes II – Penhalonga

Colored Clay.

Penhalonga is a region within a region. On the Mozambican side of the border with Zimbabwe, about 30 km from Manica, where we were based.

High altitude and fewer mosquitoes. Less malaria. Dense forest, fresh air and wildlife.

In Manica, we were told about a particular pigmented clay (pt: matope de cor). Different colours. Used in vernacular construction. We wanted to understand how it was applied in popular building traditions and explore its potential as a natural pigment for plaster and rendering in the community centre we were designing.

[PT]

Notas de Campo II – PenhaLonga

Argila Colorida

Penhalonga é uma região dentro de outra região. No lado moçambicano da fronteira com o Zimbabué, cerca de 30 km de Manica, onde residiamos.

Altitude elevada e menos mosquitos. Menos malária. Floresta densa, ar fresco e vida selvagem.

Em Manica falaram-nos de uma argila pigmentada particular (pt: matope de cor). Diferentes tonalidades e utilizada na construção vernacular. Queríamos compreender como era aplicada nas tradições construtivas locais e explorar o seu potencial como pigmento natural para rebocos e revestimentos no centro comunitário que estávamos a desenhar.

Para chegar a esse conhecimento, precisávamos de orientação local. Após anos de guerra em Moçambique, muito do saber construtivo tradicional tinha desaparecido ou enfraquecido. Sobreviveu sobretudo nas montanhas ou em zonas rurais.

Depois de várias horas a caminhar com um guia local, chegámos a um pequeno assentamento. Partilhámos café. O homem mais velho explicou como as casas se organizavam em torno de um pátio, a importância do celeiro e os métodos construtivos baseados em wattle and daub, ramos entrelaçados revestidos com terra rica em argila.

O tempo parecia mover-se de forma diferente ali. Apesar das exigências da vida diária, as pessoas encontravam espaço para se sentar, conversar e partilhar conhecimento. Havia um orgulho silencioso nas suas tradições construtivas e na forma como a vida se organizava colectivamente em torno do pátio.

Os pigmentos não eram apenas estéticos. As cores tinham significado simbólico, muitas vezes ligadas à linhagem familiar e a animais totémicos.

Na mesma região, operações mineiras legais e ilegais escavam grandes crateras na terra. Seguem-se contaminação por mercúrio e assoreamento dos rios. Uma crise ambiental mas ainda assim, para alguns, a única fonte de rendimento disponível.

Apesar disso, a argila continua a ser fundamental. Para a agricultura, para a construção, para a mineração e para a própria vida.

O solo faz parte da economia e faz parte da cultura construtiva.
Terra, material, território e cultura tornam-se inseparáveis.

📸 Fotografias CAS Studio:
1 – Figueira-brava (Ficus), Penhalonga
2 – Montanhas de Penhalonga, Moçambique
3 – Mulher a aplicar reboco de argila
4 – Arquitectura vernacular, Penhalonga
5 – Mulheres a preparar milho
6 – Mineração artesanal, Penhalonga

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