Field Notes – Vernacular Architecture in Africa

Pre colonial African dwellings were systems of life.
Back in 2012, in Manica, Mozambique, where CAS Studio was forged, we learned that architecture was about nature and its cycles. Earth, people, animals and climate held together by culture, emerging as an integrated system. 

[PT]

As habitações africanas pré coloniais eram sistemas de vida.
Em 2012, em Manica, Moçambique, onde o CAS Studio foi forjado, compreendemos que a arquitetura estava ligada à natureza e aos seus ciclos. Terra, pessoas, animais e clima mantinham-se unidos pela cultura, emergindo como um sistema integrado.

Durante o período em que lá vivemos, desenvolvemos uma longa investigação de campo no sul e leste de África. Contactámos com formas históricas e construtivas em desaparecimento, desde as estruturas em pedra do Grande Zimbabwe e as casas de tabique dessa região, até às paredes de terra, pedra e caniço com coberturas de colmo ao longo da costa suaíli, de Inhambane a Pemba, passando por habitações em adobe em Manica e Gorongosa.

Estas viagens não foram exercícios de documentação, mas atos de aprendizagem por proximidade. Observando como forma, material, clima e ordem social convergem sob restrições. O que encontrámos não foi o vernacular como folclore, mas como inteligência acumulada. Arquitetura moldada pela necessidade, pela continuidade e pelo uso.

Em regiões como Manica, entre o Zambeze e o Limpopo, os conjuntos familiares eram compostos por múltiplos edifícios de terra, cada um com uma função clara. As formas circulares predominavam. Paredes cilíndricas em terra e pedra, coberturas cónicas de colmo, espaços organizados hierarquicamente em torno de pátios partilhados, numa estrutura orgânica. O centro não era vazio. Era um lugar de encontro, ritual e comunidade.

Estas casas eram construídas com terra, madeira, caniço e pedra. As paredes de terra ofereciam massa térmica e respirabilidade. Os cercamentos em pedra seca protegiam as habitações mais importantes, reforçando a ordem social e simbólica. A arquitetura expressava poder, cuidado e pertença, não estilo ou decoração.

Com o tempo, chegaram novas forças. Influências islâmicas do oceano Índico, modelos mediterrânicos e árabes, e mais tarde importações coloniais. As formas retangulares, as coberturas de duas águas e novos esquemas espaciais disseminaram-se das cidades para as zonas rurais. As estruturas familiares alteraram-se. Vários edifícios tornaram-se um só. O centro comunitário de encontro transformou se em simples espaço de circulação.

As novas tecnologias simplificaram a construção, uniformizaram tipologias e muitas vezes desligaram os edifícios dos recursos locais, do clima e da cultura.

O que permanece hoje é um legado estratificado. Circular e retangular. Terra e materiais industriais. Tradição e adaptação. A cultura transformou se através da mudança, por vezes através da tensão.

Compreender como cultura, clima, material e economia moldam a arquitetura, e como a arquitetura por sua vez molda o que vem a seguir, é onde o nosso trabalho começa. Estes princípios orientam as nossas escolhas de materiais, as nossas estratégias bioclimáticas e os nossos detalhes construtivos.
 
📸 Fotografias by CAS Studio:
1 – Casa de adobe e cobertura de colmo, Montanhas de Manica, Mozambique
2 – Casas dispostas á volta de pátio, Montanhas de Manica, Mozambique
3 – Tabique, detalhe de parede, Pemba, Mozambique
4 – Tabique, parede, bambu e terra, Pemba, Mozambique

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